O Engenhoso Fidalgo Stefan Zweig - texto II

Da mesma forma que Dom Quixote via gigantes onde só havia moinhos de vento, Stefan Zweig via no Brasil um destino de progresso onde só havia possibilidade de progresso. Nem todas as possibilidades se tornam reais. Uma pessoa que tenha dez dedos pode tornar-se pianista, mas nem todas o serão. Mas, deslumbrado com essa terra onde, como dizia Caminha, "em se plantando tudo dá", e acreditando haver realmente uma pacífica convivência entre as etnias, as crenças e as classes, Zweig coloca o Brasil como um modelo para o mundo. Não quis ele saber ou não deu a devida atenção a episódios sangrentos da nossa História como a Cabanagem, a Revolta dos Malês e a Guerra de Canudos; não atentou para as invasões da polícia contra os terreiros de candomblé e a segregação não declarada à qual os negros eram (e ainda são) segregados.
Uma das páginas mais ingênuas de seu livro é a que trata das favelas. Transcrevo o parágrafo:
"Algumas das coisas singulares, que tornam o Rio tão colorido e pitoresco, já se acham ameaçadas de desaparecer. Sobretudo as 'favelas', as zonas pobres em plena cidade, será que ainda as veremos daqui a alguns anos? Os brasileiros não gostam de falar dessas 'favelas'; do ponto de vista social e do ponto de vista higiênico constituem elas um atraso numa cidade muito limá e que, por um serviço modelas de higiene, em alguns anos se libertou inteiramente da febre amarela, que outrora nela era endêmica. Mas as "favelas" apresentam um colorido especial no meio dessa figura caleidoscópica, e ao menos uma dessas entrelinhas do mosaico deveria ser conservada no quadro da cidade, porque elas representam um fragmento da natureza humana primitiva no meio da civilização."
(ZWEIG, Stefan. "Brasil, País do Futuro". Tradução de Odilon Gallotti. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985, pág. 156.)
Zweig jamais imaginou que as elites do Brasil fariam de tudo para que não houvesse a distribuição de renda e os programas sociais necessários para extinguir as favelas.

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