E querem que os presidiários se recuperem?
Não quero esquecer que esse fato se deu no dia 30 de março
de 2017. Um dia que começou para mim cheio de aborrecimentos: tudo quanto
planejara para essa data estava dando errado. Aí eu cometi mais um erro: entrei
às 16 horas em um ônibus para Niterói crendo estar atrasado para um compromisso
às 17 e 30. O fato é que minha amiga e eu tínhamos combinado de nos
encontrarmos às 19 e 30: ou seja, eu estava mesmo adiantado crendo estar
atrasado. Não fosse esse erro, eu não estaria naquele ônibus e não teria sucedido
o que vou contar.
Se eu acreditasse em Deus, diria que Irmã Dulce, a quem o
Vaticano logo declarará santa, enganou-me para que eu entrasse naquele ônibus.
No trajeto entre São Gonçalo e Niterói, já no bairro de Santa Bárbara, entra um
homem que, com a voz já comprometida por um exaustivo esforço, começa a contar
sua vida: era um ex-detento em liberdade condicional, morava nos arredores e
tinha que prestar serviços à comunidade três vezes por semana naquele colégio
estadual que havia pouco víramos pela janela (limpava o chão, espanava os
livros, fazia toda sorte de serviços não-qualificados), e, marcado pelo estigma
da cadeia, não conseguia emprego de carteira assinada (e como conseguiria,
pergunto-me eu, com três dias da semana comprometidos?); portanto, vendia doces
nos ônibus. Entrara ali de mãos vazias, pois, ao sair do colégio, chegara em
casa e viu que acabara o leite do seu filho caçula. E ali estava ele não
vendendo doces, mas pedindo trocados, não para o leite do menino, mas para
comprar doces a fim de vendê-los e conseguir o necessário para o leite e outras
despesas.
Foi esse o discurso e passou de poltrona em poltrona,
recolhendo doações. As pessoas – poucas – entregavam-lhe moedas de pouco valor.
Desesperei-me: havia uma criança com fome; quanto tempo aquele homem de voz já
rouca levaria para angariar dinheiro para os doces e, depois, quando
conseguiria vender o suficiente para comprar a necessária lata de leite?
Prontifiquei-me a comprar a caixa de doces que ele queria. Ele, aliviado,
agradeceu, sentou-se ao meu lado e dormiu.
Saltamos no ponto final, quando ele finalmente acordou e
fiz-lhe perguntas: qual sua instrução? Tivera oportunidade de estudar no
presídio? Disse que fizera até a 8ª série (atual nono ano do Fundamental) e que
não havia professores no presídio de Água Santa.
– Só o que tinha lá
era maconha e cocaína para nos perder. Eu estou me ressocializando com meu
próprio esforço. – declarou, revoltado na primeira frase, orgulhoso na segunda.
Chegamos à loja de doces. Pediu-me que comprasse uma caixa
de jujubas que custava R$ 23,10, porque, quando vendesse todo seu conteúdo,
teria em mãos R$ 60,00. Comprei e ali mesmo rasgou-a para expor a mercadoria
que minutos depois estaria vendendo. Deu-me um dos mais calorosos abraços que
recebi na minha vida. Desejou que Deus me abençoasse e eu apenas o aconselhei
que procurasse ler enquanto estivesse cumprindo sua prestação de serviços na
escola.
Fiz o bem, não por desejar que Deus me abençoe e me ajude –
até porque Jesus de Nazaré, que muitos creem ser filho de Deus, disse que quem
conta o bem que fez perde os créditos com o Eterno (vide o Evangelho de Mateus,
cap. 6) – mas porque a ressocialização dos condenados deveria ser uma das
preocupações primeiras de todas as gestões. Quando estava na faculdade, quis
ensinar nos presídios, foi-me feito um convite, mas não poderia fazê-lo sem um
retorno financeiro, uma bolsa do governo. Se eu não ajudasse aquele
trabalhador, como poderia ter tranquila a minha consciência quando critico a
omissão do governo? E alguém acredita mesmo que um homem, com sua agenda
comprometida pela obrigação de um serviço comunitário, sem instrução, e, ainda
por cima, marcado por uma condenação, conseguirá emprego?
Os governadores,
juízes e desembargadores do Brasil deveriam andar de ônibus, como este
professor mal remunerado que escreve estas linhas. Assim aprenderiam o que é a
vida real.
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